/PEDRO E FLORA: UMA HISTÓRIA DE AMOR? – Capítulo 01

PEDRO E FLORA: UMA HISTÓRIA DE AMOR? – Capítulo 01

PEDRO E FLORA: UMA HISTÓRIA DE AMOR?
 
Capítulo 1: O BILHETE
 
Havia apenas um bilhete. Estranho, nunca a vira com uma caneta, o celular era uma extensão de seus dedos. Lá estava o papel em cima da mesa: “Não consegui contar a você. Vou mandar zap”. Oito palavras. Não conseguiu contar? O que? Zap? pensou. Dizia que Pedro era um homem da idade da pedra, se recusava a ter celular e evitava o computador. Jamais atendia o telefone e insistia em usar uma velha máquina de escrever. Flora brincava: quando a Remington quebrasse ele teria que invadir um museu para conseguir outra máquina.
 
O pensamento parou de voar e resolveu examinar a casa. A sala era uma cópia de si mesma. Afora o bilhete, nada de novo: a mesa de sólida madeira, quatro cadeiras, o espelho extravagante que ele tivera que aceitar, a mega tevê e o sofá onde viam filmes antigos em preto e branco. Entrou no quarto. Antes, várias fotos de montanhas do mundo todo coloriam as paredes, agora, o silêncio branco. Abriu o armário como se de lá fosse saltar uma cobra. Suas roupas estavam no lugar. Do outro lado a metade vazia estava tão oca quanto o seu coração. No banheiro, a escova de dentes jazia solitária no copo. Atrás da porta, nem sinal da camisola azul. Ainda bem. Não tinha esquecido de levar nenhum perfume ou creme. Mas o cheiro dela, que permanecera, tornava o ar irrespirável. Teve que se apoiar na parede de azulejos.
 
O que fazer agora? Foi até a cozinha. Queria se afogar, mas na falta de um bom lago ou rio, um copo d’água ia bem. Não entendia. Achava que estavam dando certo. Não lembrava de briga feia ou reclamação. Durante um ano e meio, esqueceram o que era sexo, só faziam amor. O prazer de um era o prazer do outro. Foi assim desde a primeira vez. Beijos perdiam a noção de tempo e espaço. O mundo renascia. Dois corpos, duas almas. Os olhares se perseguiam, o fio invisível. Depois Flora tirava uma sonequinha enquanto ele preparava o almoço, o peixe com batatas ao alho que ela adorava, um spaghetti com camarão e outras comidas. Devia haver algo no quarto. Escondido no canto da mesa do computador, um pequeno pacote invadiu as retinas de Pedro. As mãos rasgaram com avidez o papel pardo…
 
(continua amanhã)