Era um convite irrresistível: assistir gratuitamente à leitura da mais antiga peça indiana, escrita há mais de 2.300 anos. Chama-se Sonho com Vásavadattá, de Mahakavi Bhása. O local não podia ser mais apropriado: o Centro de Estudo de Vedanta e Tradição Védica Vidya Mandir, em Copacabana. Os atores eram alunos e seguidores desta tradição, com graus diferentes de talento dramático como era de se esperar. Pensei que o texto seria muito filosófico e cheio de lições de sabedoria.
Fui alegremente surpreendido. Era uma comédia de erros, girando em torno de um rei apaixonado que pensa que sua rainha morreu em um incêndio e por isso se casa com outra para selar uma aliança militar. Ao fim, o famoso reconhecimento da rainha, que estava disfarçada e que não se revelava para não prejudicar a estratégia do marido. Há duas coisas muito bacanas na peça. A primeira é que ninguém é mau, nada do que ocorre é fruto de um cálculo para prejudicar alguém. Ao contrário, todos se doam e se sacrificam, até mesmo a segunda rainha, que numa peça ocidental seria uma rival temível e inescrupulosa. Segundo o folheto da peça, o objetivo do autor era “mostrar a importância do equilíbrio entre as emoções, em especial o amor, e o mundo das obrigações.”
O segundo ponto, que novamente aprendi lendo o folheto, é que naquele momento as peças só eram consideradas completas se fossem abordadas as nove emoções básicas (Nava-rasa), a saber:
1. shrngára: paixão; encantamento amoroso
2. bhayanka: medo
3. bibhatsá: revolta; nojo; desapontamento
4. adbhuta: surpresa; encantamento
5. víra: coragem
6. hásya: gargalhada
7. karuna: compaixão
8. raudra: raiva
9. shánta: paz
Algum de vocês consegue acrescentar mais uma emoção “básica”? Pois é, essa turminha de dois mil e trezentos anos…
Notem que a peça termina em perdão, da mesma forma que a primeira emoção básica é o amor, mas a última, para fechar tudo com chave de ouro, é a paz, shánta.
Shánta pra todos vocês. Beijo.