/Bem vindo, Stephane

Bem vindo, Stephane

BEM VINDO, STEPHANE

Quando ele disse seu nome, não entendi de primeira. Havia um quase imperceptível sotaque, talvez fosse o ritmo da fala ou quem sabe o próprio nome, incomum por estas bandas, Stephane. Era um jovem negro luzidio, sorriso de marfim e elegância ancestral. Notei um leve desapontamento da parte dele ao perceber que eu tivera dificuldade em compreender seu nome. Mas eu sorri antes de perguntar novamente.  E aí ele me ofereceu com simpatia o cardápio daquele restaurante libanês onde eu estava jantando naquela noite paulistana.

Meu cérebro ficou dando uma googlada nos meus parcos arquivos linguísticos e decifrei que o sotaque dele, hipótese reforçada pelo nome, era de um falante de Francês. Somando a isso algumas informações sobre imigrantes em São Paulo, deduzi que ele fosse haitiano. Quando trouxe meu Mojito perguntei em Francês se era haitiano. Confirmou timidamente, respondendo em Português, língua que ele deve ter aprendido a ferro e fogo para poder trabalhar ali, servindo ao público.

Contemplando aquele rapaz, tão educado, tão competente e, por que não, tão bonito, fiquei pensando como alguém pode ser contra a vinda de imigrantes para o Brasil, país que só existe graças ao encontro, violento mas também pleno de maravilhas originais – bastaria falar na nossa música – de povos e etnias bem diferentes. Stephane nos traz sua vida, sua capacidade de trabalho, suas histórias e sua história, sua cultura e tudo o mais que ainda vai acontecer neste diálogo que ele vem tecendo com o Brasil.

Minha mãe era imigrante, fugindo de um falso amor atravessou o Atlântico de barco e acabou nos braços de um bom baiano com quem recriou sua vida. Minha mãe falava Português, mesmo que com sotaque, e era histórico-sociologicamente branca. Praticamente não sofreu preconceito afora uma ou outra madame que achava que mulher portuguesa só podia ser burra e ignorante. Mamãe respondeu com trabalho. Assim como Stephane. Espero que ele também consiga construir sua vida aqui, que seja feliz, que nos enriqueça com sua presença luminosa. Queria ter ultrapassado minha timidez e dito a ele: seja bem vindo, Stephane.

Peço a dolorosa em Francês. Ele sorri e pela primeira vez responde também em Francês. Já percebeu que eu não estava exibindo meus modestos conhecimentos e sim estendendo a ele uma mão imaginária. Quando chega a conta, agradeço e desejo boa sorte na língua dele. Ele também agradece e termina respondendo ao meu “Boa sorte” com a frase que pode resumir tudo:

“Para você também”