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Era só perguntar

ERA SÓ PERGUNTAR

Nasci com quase cinco quilos, rechonchudo, bochechudo e curiosamente louro. A cabeça, por seu tamanho, criou certo problema no parto e tive que ser tirado literalmente a fórceps. Depois disso passei a minha infância toda sendo miseravelmente magrelo, ossudo, franzino. Como já contei aqui, mamãe fazia de tudo para me engordar. O paradigma de saúde dela era um menino encorpado com faces rosadas, um ideal que nunca atingi. Mas ela nunca se cansou de tentar.

Resolveu pedir ajuda especializada e me levar ao pediatra mais badalado do Brasil, autor de um clássico sobre bebês que vendeu milhões de exemplares. Eu não tinha absolutamente nada, nem um resfriado. Estava talvez com uns doze ou treze anos, idade em que muitos dos meus colegas já haviam entrado na puberdade. Comigo o processo ainda não viera à tona. Eu não tinha a menor ideia do que era isso, ninguém falava dessas coisas lá em casa. Na escola, silêncio total. E perguntar aos colegas, nem pensar, aí é que eles iriam ter certeza de que aquelas coisas estranhas de que falavam não haviam acontecido ainda com você. Ignorância e vergonha, de mãos dadas.

E lá vamos nós para o consultório do grande médico, do medalhão dos medalhões. Não era um consultório, era quase um mini-hospital. Havia uma espécie de linha de montagem. Primeiro você falava com a recepcionista. Depois vinha a enfermeira medir, pesar, tirar pressão, perguntar pra que time você torcia. Em seguida um médico mais jovem, que te pré-entrevistava. E finalmente, tinha-se direito a alguns preciosos minutos com o que sabia tudo, o poderoso e inigualável pediatra.

Era um sujeito bem pequenino e a lembrança que guardo dele é de alguém parecido com um ratinho. Tinha uma voz esquisita. Primeiro ele foi diplomático, perguntou à minha mãe pelos meus hábitos, pela alimentação, essas coisas. Quando ela disse que eu odiava leite, ele sugeriu que eu “tomasse” leite comendo queijo e até chupando sorvete, o que me alegrou deveras. Depois, estranhamente, pediu a ela que saísse da sala para conversar um tempinho comigo.

Assim que mamãe saíu ele mudou para um tom mais másculo, voz mais grossa, estilo conversa entre homens. Falou que não era certo eu deixar minha mãe preocupada daquele jeito. Me encolhi mais ainda na cadeira. Ele olhou bem nos meus olhos e disparou:

– Garoto, vê se não bate tanta punheta. Uma por dia tá bom…

Fiquei ali, sem saber o que dizer. Afinal eu não podia desmentir um dos maiores médicos do Brasil, não é? Pelo jeito, se eu dissesse que ainda não praticava essa arte ele iria me chamar de mentiroso. Por incrível que pareça, ele pensava que bastava olhar para aquele menino para saber o que estava acontecendo.

Na verdade, para saber o que estava acontecendo seria necessária uma técnica muito simples que o doutor sabichão claramente não dominava.

Era só perguntar.