/HISTÓRIAS DO ALVITO – CONFISSÕES DO REI DA DINAMITE

HISTÓRIAS DO ALVITO – CONFISSÕES DO REI DA DINAMITE

HISTÓRIAS DO ALVITO
CONFISSÕES DO REI DA DINAMITE
Quem já leu Grande sertão: veredas conhece Compadre meu Quelemém. Pequeno agricultor que acorda de madrugada para trabalhar, pessoa boa e tranquila. Ele ouviu com compaixão a história trágica de Riobaldo e tentou acalmá-lo. Quelemém era espírita kardecista e explicava tudo à base do que havíamos feito de ruim nas vidas passadas e que agora estaríamos pagando, o famoso karma.
Pois eu fico pensando deveras no fuzuê que eu devo ter aprontado nas minhas anteriores reencarnações. Estou me sentindo mais cercado do que a Ucrânia. O sujeito da casa ao lado, por exemplo. Por que motivo ele compra uma casa pra derrubar tudo, quebrar, marretar dia e noite, furar, arrancar chão e parede? É substituto do pessoal da casa em frente que reformou a mansão de cima em baixo, construiu um puxadinho de rico e até botou piso de luxo pros carros assim que começou a pandemia. É lógico que viajaram enquanto isso. Tem também os bate-bocas entre motoristas e motoqueiros, motoristas e motoristas e até motoqueiros e motoqueiros. Só o pessoal da bicicleta é que não dá problema. Quer dizer, tem o homem do pão que sobe a rua de bicicleta buzinando com vontade, como se fosse música. Sem falar nas ambulâncias, no corpo de bombeiros, na polícia. E agora tem esse gavião que não para de guinchar dia e noite, com a fome de deputado do Centrão por emendas do orçamento.
E eu querendo ler, estudar, pensar.
Ou seja, devo ter sido muito, mas muito barulhento e muito mau em outras vidas para sofrer esse bombardeio de ruídos. Talvez fosse da gangue do Al Capone e vivesse metralhando tudo que via pela frente. Ou o cara encarregado de tocar a sirene da fábrica arrastando os operários para o trabalho. Não, tudo isso é pouco. No mínimo eu fui o inventor da dinamite, feita pra explodir tudo de uma vez com muito estrondo.
Afinal, já que é pra errar, ainda mais numa vida passada, não posso fazer por menos.