/A RAINHA DE CHUTEIRAS – Capítulo 18. Um clube para chamar de seu

A RAINHA DE CHUTEIRAS – Capítulo 18. Um clube para chamar de seu

 

Cap. 18 – MyFootballClub – um clube de futebol para chamar de seu – A Rainha de Chuteiras

Marcos Alvito

MyFootballClub – um clube de futebol para chamar de seu

 

Gordon, 45, era torcedor do Arsenal. Sua amiga Sally, 50, do Manchester United. Agora torcem para um time da 5a. Divisão de uma pequena cidade no sudeste da Inglaterra. Gordon e Sally pertencem a uma comunidade virtual chamada MyFootballClub, composta por membros de 88 países diferentes. Desde fevereiro de 2008, Sally, Gordon e outros 30 mil internautas são donos de um clube de futebol de verdade, o Ebbsfleet United.

Tudo começou quando o jornalista esportivo Will Brooks, 38, torcedor do Fulham, teve a ideia de criar um site visando levantar fundos para a compra de um clube de futebol a ser totalmente gerido pelos seus torcedores-proprietários. Inclusive em termos de escalar o time do goleiro ao ponta-esquerda, comprar e vender jogadores e até escolher a tática a ser usada durante o jogo. Brooks afirmou em uma entrevista ao Daily Telegraph: “sempre fui encantado com a ideia de que um clube não tem que depender somente da torcida local e sim  ter uma torcida global, e a Internet permite isso”. Em abril de 2007, depois de dois anos de preparação, Brooks lançou o site www.myfootballclub.co.uk . Primeiro fez uma enquete perguntando quantos estariam dispostos a bancar o esquema e mais de 50 mil pessoas responderam afirmativamente. A partir daí, quem quisesse participar efetivamente deveria pagar 35 libras (117 reais), menos do que custa um ingresso para um jogo da Premier League em geral. Desse total, 80% seriam utilizados para a compra do clube e 20% seriam depositados em um fundo administrativo.

No braço do torcedor o lema do MyFootball Club – seja o dono do clube e escale o time. – Foto: Marcos Alvito – Acervo Pessoal.

Os membros puderam expressar sua preferência em termos dos clubes que desejavam comprar, mas a decisão final ficou nas mãos de Brooks. É que o clube adquirido tinha que preencher determinadas condições. Pelo menos 51% das ações tinham que ser compradas pelo MyFootballClub. Ou seja, os novos donos seriam sócios-majoritários totalmente no controle. A segunda condição é que o clube não tivesse nenhuma ou quase nenhuma dívida. Potencial para chegar à Primeira Divisão era a terceira condição. Além disso, o clube tinha que ter um estádio compatível e ser acessível em termos de transporte público. Por último, é claro, o clube teria que concordar com a filosofia e o modus operandi do MyFootballClub. Do ponto de vista legal estava tudo direitinho. O MyFootballClub está registrado junto às autoridades financeiras e os torcedores-proprietários receberiam seu certificado por e-mail.

Muita gente achou piada, mas vinte mil pessoas aderiram em poucos meses, levantando 700 mil libras (2 milhões, 345 mil reais), uma quantia tão significativa que cerca de sete clubes procuraram o site. Em novembro, o MyFootballClub anunciou que havia fechado um acordo com o Ebbsfleet United, um pequeno clube da Blue Square Premier. Os recursos do site permitiram sanar a pequena mas crescente dívida e comprar 75% do clube. Feito o acordo, Brooks e sua equipe passaram dois meses examinando as contas do Ebbsfleet antes de encaminhar a votação virtual em janeiro de 2008. Cerca de 18 mil pessoas votaram pela Internet, mais de 95% apoiando a compra do clube.

As reações foram variadas. Houve quem dissesse  que era apenas um “esquema” para fazer dinheiro em cima de incautos internautas. Houve quem achesse a ideia genial e revolucionária. Houve quem achasse um ultraje e um desrespeito como o respeitado colunista esportivo do The Times, Martin Samuel. Assim que o acordo foi fechado em novembro de 2007, Samuel escreveu um artigo demolidor: “Power to the wrong people” (O poder para as pessoas erradas). Lamentava que um clube com uma história datando do final do século XIX fosse destruído por pessoas que nunca foram a um jogo, propondo que o nome do site passasse a ser YourFootballClubScrewed (SeuClubedeFutebolFerrado, em uma tradução bem comportada).  Em tom exaltado, afirmava: “Um oitavo do preço de um season ticket não te dá direitos iguais aos 930 torcedores de verdade que apareceram para ver o Ebbsfleet perder em casa para o Forest Green Rovers em 3 de novembro. Para eles, não é um novo tipo de presente natalino, ou um hobby divertido, mas parte da sua alma. Quando os membros do MyFootballClub se cansarem da novidade e pararem de renovar sua assinatura (…) os 930 continuarão lá, tremendo de frio, infelizes, perguntando-se como foi que seu clube foi reduzido a isso”. Samuel vaticinava, além disso, um desastre completo dentro e fora de campo, em termos técnicos, táticos e administrativos.

Em 10 de maio de 2008, seis meses depois do artigo de Samuel, o Ebbsfleet United e seus torcedores vão a Wembley pela primeira vez na sua história, para disputar a final da FA Trophy, uma copa da qual participam clubes entre a 5a. e a 8a. divisões. Então os críticos estavam todos errados, inclusive Martin Samuel? Ponto para a democracia virtual? Em termos. Para começar, os membros votavam na sua escalação preferida, mas houve um entendimento de que o técnico teria o direito a fazer a escolha final. Ou seja: ele continuava a escolher o time que entraria em campo. Uma proposta no sentido de que o técnico continuasse com as contratações planejadas para o meio da temporada e com as possíveis renovações de contrato foi apoiada por mais de 95% dos quase 18 mil que votaram. Ou seja, por um lado, os novos proprietários respeitaram Liam Daish e a comissão técnica existente antes da compra. Por outro, a ideia de escalar o time a partir do voto foi posta de lado. Na verdade, uma consulta aos membros levou à descoberta que apenas 15% faziam questão absoluta de escolher a escalação. 60% disseram que queriam escolher mas gostariam de que o técnico tivesse margem de manobra e surpreendentes 25% disseram que não queriam escolher do time.

Como a realidade é bem mais rica do que os artigos de jornal ou as estatísticas, a única forma de entender melhor o processo seria conversar diretamente com os torcedores do clube, desde os torcedores tradicionais até a turma do teclado. Embora Gravesend seja uma cidade com menos de 50 mil habitantes, havia pelo menos 25 mil torcedores do Ebbsfleet dentre o público de 40.186 pessoas presente a Wembley naquela tarde abençoadamente quente e ensolarada. Ou seja, o pessoal do MyFootballClub com certeza apareceu de carne e osso para dar uma força. Dentre eles estavam Gordon e Sally. Eles dizem ter aderido ao MyFootballClub em agosto e ambos afirmam que agora são torcedores do Ebsfleet para valer. Gordon até já comprou um season ticket para a próxima temporada, quando planeja ver todos os jogos. Ele esteve presente a mais de uma dúzia de jogos na temporada 2007-8 – Sally, por morar bem no norte da Inglaterra, só foi a oito. Gordon explica a razão do entusiasmo por seu novo clube: “É futebol de verdade. Eu costumava ir ao Emirates ver o Arsenal jogar, quando eu conseguia um ingresso, que hoje custa muito mais do que um torcedor de futebol normal pode pagar. O futebol que eles jogam, admito que seja bonito, é um futebol espetáculo, mas é tão afastado da realidade…”. É interessante como esse novo-torcedor, originário do hiper-espaço, adota um discurso que valoriza a tradição do bom e velho futebol inglês: “Quando você vai ver um jogo da 5a. Divisão, Ebbsfleet contra outro time, eles simplesmente entram em campo e jogam, não há jogadores cavando faltas e caindo como se tivessem tomado um tiro, eles simplesmente se levantam e continuam com o jogo. Pode não ser bonito, mas é um trabalho duro, honesto.” Elogia a atmosfera dentro de Stonebridge Road, o estádio do Ebbsfleet: “ali você fica ao lado de pessoas que frequentam há 50 ou 60 anos, ou junto de jovens famílias que podem pagar e que escolhem passar seus sábados à tarde daquela maneira.”

Pergunto a eles como é a recepção por parte dos torcedores mais antigos. Sally admite que de início os torcedores pensavam que o MyfootballClub fosse desestabilizar o Ebbsfleet, mas que agora estão percebendo que a nova situação traz muitos benefícios para o clube. Ela diz que estão sendo feitos esforços para aproximar os dois grupos de torcedores, o que tem sido feito durante os jogos e também através dos foruns virtuais, é claro. Gordon acha que dessa maneira podem compartilhar ideias. Ele concede precedência absoluta aos “torcedores originais” do clube: “eles são quem sabe o que deve ser feito, devemos encorajá-los a nos dizer o que precisa ser feito, ao invés de ficarmos trazendo novas ideias o tempo todo, que podem não funcionar, porque nós não conhecemos a área nem a composição da torcida como eles.”

Quando converso com alguns “torcedores originais”, as respostas que obtenho também são surpreendentes. John, 47, veio ao jogo com toda a família, inclusive uma filha que ele diz ser torcedora fanática. John torce para Ebbsfleet há mais de 40 anos, desde quando ele se chamava Gravesend & Northfleet. Acha que o impacto da compra pelo MyFootballClub só vai poder ser sentido na próxima temporada, quando novas contratações poderão ser feitas com o dinheiro que entrou. Não parece se importar com os novos torcedores, assume uma postura pragmática: “Por que não? Se eles continuarem trazendo dinheiro para o clube, tanto melhor. Se conseguirmos subir de divisão, ótimo, caso contrário vamos continuar fazendo o que sempre fizemos, vamos continuar sendo torcedores do Ebbsfleet.”  Quando pergunto o que ele sente em relação aos torcedores que aderiram pela Internet, ele é crítico mas usa de uma pontinha de simpatia: “Não tenho visto muito eles no estádio… mas obviamente esta final pode estimular alguns deles a aparecerem. Nós temos um público de mil e duzentas pessoas nos jogos em casa, se pudermos chegar aos dois mil será ótimo, portanto, quantos mais vierem, melhor.”

Graham, 45, estava com o pai já idoso, um amigo e o filho adolescente deste último. Quanto aos novos torcedores, faz uma crítica implícita ao salientar que o público presente ao estádio não aumentou depois que o clube foi vendido, mas admite que a final de hoje – que seu pai descreve como a maior honra já alcançada na história do clube – já é o resultado dos recursos provenientes do MyFootballClub.

É claro que há outras opiniões, mas o importante é perceber que torcedores “tradicionais” como John e Graham podem ser pragmáticos e mais interessados no sucesso do clube do que em qualquer outra coisa, enquanto Gordon, um torcedor “virtual”, pode ser um ardoroso defensor da tradição, quase um idealista em busca de antigos valores do futebol. Seja lá como for, naquele sábado à tarde estavam todos a torcer pelo Ebbsfleet, com seu belo uniforme de camisas e meias vermelhas e calções brancos. Do outro lado, o Torquay United, todo de amarelo. O Torquay é o favorito, pois terminou o campeonato da Blue Square Premier na terceira colocação, muitos pontos à frente do Ebbsfleet, que ficou em 11o. lugar. Mas quem visse o público presente pensaria que era o oposto: a torcida de vermelho era quase o dobro da torcida do Torquay. Impressionado com o número de pessoas presentes, um rapaz ao meu lado falava no celular: “está lotado, metade da cidade deve estar aqui!”.  Pode ser, mas ele esquecera dos internautas…

Qualquer final de Copa é sobretudo uma festa, ainda mais em Wembley, um local mítico na história do futebol inglês. Uma hora antes do jogo começar, torcedores dos dois clubes bebiam juntos, sem problemas, nos pubs da área como The Bear e Greyhound. Em torno do estádio, famílias faziam piqueniques improvisados aproveitando o dia de sol e escapando dos preços exorbitantes cobrados nas lanchonetes do estádio. Mas lá dentro o clima de decisão impera. Quando o locutor anuncia as escalações os torcedores vaiam cada um dos jogadores adversários. Fiquei sentado na arquibancada inferior atrás do gol, bem perto do campo e no meio da torcida do Ebbsfleet.

O Torquay começa o jogo a todo o vapor. Com cinco minutos de jogo já tinham tido duas chances. Uma falta cobrada junto à trave, foi colocada para corner pelo bom goleiro Lance Cronin. E uma cabeçada levou muito perigo. Até a metade do primeiro tempo o Ebbsfleet praticamente só se defende. Depois começa a equilibrar um pouco as ações graças aos chutes de longe de Stacey Long, o camisa oito que fora escolhido o melhor jogador do time em votação pela Internet com quase 40% dos votos. Faltando quatro minutos para terminar, pênalti a favor do Ebbsfleet. Chris McPhee cobra mal e Martin Price defende. Do lado de lá os torcedores do Torquay vibram muito e provocam: “Who are you?”. Mas os deuses do futebol são caprichosos. No último minuto do primeiro tempo, John Akinde, 18, vindo das divisões de base do Ebbsfleet, consegue roubar uma bola pelo lado esquerdo, passa pelo zagueiro na linha de fundo e cruza na medida para o mesmo Chris McPhee que quatro minutos antes perdera o pênalti fazer 1×0. Agora era a vez da torcida do Ebbsfleet devolver o “Who are you?”.

No segundo tempo o lado do Ebbsfleet é uma festa só. Dentro de campo, havia momentos de bom futebol, mas o que imperava era a luta pela bola e muito chutão pro alto. Enquanto o Ebbsfleet conseguia segurar bem a pressão do Torquay, na arquibancada seus torcedores se divertiam fazendo ola sem parar na maior alegria e vaiando quando a torcida do Torquay não entrava na brincadeira. Onde eu estava alguém levara uma bola de plástico bem grande, daquelas de criança pequena e a turma vibrava dando tapas na bola pra lá e pra cá. E levantavam em peso depois que um careca barbudo com o braço na tipóia puxava o “Who loves Ebbsfleet stand up” (Quem amar o Ebbsfleet se levante). Estavam tão animados e bem-humorados que faziam óóóó novamente toda a vez que o telão repetia um lance de perigo, como se agora a bola fosse entrar.

Quando o jogo termina, a comemoração é muito bonita dentro e fora de campo. Os jogadores do Ebbsfleet aproximam-se da arquibancada e aplaudem seus torcedores. Um ou outro até passa pelas barreiras de separação indo abraçar parentes e amigos. Depois eles sobem um a um até a tribuna onde vão buscar o troféu para apresentá-lo à torcida.

Ninguém sabe o que vai acontecer com o Ebbsfleet United daqui pra frente. É bem possível que o time consiga subir para a 4a. divisão nos próximos anos, graças ao apoio do MyFootballClub. Desde o início, mesmo antes do negócio ser fechado, os torcedores “virtuais” já recolhiam dinheiro para comprar traves e bolas. Alguns deles trabalharam como voluntários na venda de ingressos para a FA Trophy. A enorme atenção gerada na mídia trouxe patrocínios importantes como a Nike, que forneceu os uniformes para a final, de acordo com o desejo de 89% dos torcedores-proprietários. E uma proposta de fazer propaganda pelo rádio para atrair o público nos Estados Unidos, onde moram 4 mil dos membros, foi aprovada com mais de 60% dos votos.

Essa mistura do tradicional e do moderno é um desafio àqueles que gostam de dicotomias. Um exemplo: um grupo de membros fez um videoclip chamado “Beat the Wheater” e disponibilizou o arquivo no YouTube e no iTunes, ao preço de 79 pence (79 centavos de libra, o equivalente a 2 reais e 64 centavos), estimulando os torcedores do Ebbsfleet a baixá-lo. Nada mais moderno, não fosse o fato de que a improvável estrela do videoclip é um senhor de 72 anos, Peter Norton, responsável pelo gramado de Stonebridge Road há 27 anos. Todo o dinheiro arrecadado vai para o clube, Peter só quer um novo aparelho para espalhar fertilizante.

Quem morar muito longe, como os 500 australianos que aderiram ao esquema, pode assistir aos jogos pela Internet no site. O clube fez questão de solicitar uma licença à Football Association e à Sky para que pudesse retransmitir a final ao vivo pela Internet.  Nesta época em que bilionários estrangeiros de reputação duvidosa compram clubes da Premier League como se estivessem num supermercado, a experiência do MyFootballClub pode apontar caminhos interessantes para uma maior participação dos torcedores.

Antes do jogo, quando perguntei a Gordon qual a melhor música do Ebbsfleet ele cantou:

“We are going to Wembley,

we know you don’t believe us,

we know you don’t believe us

But we are going to Wembley”

(Nós vamos pra Wembley

sabemos que você não acredita na gente,

sabemos que você não acredita na gente,

Mas nós vamos pra Wembley)

E fechou com um sorriso: “And we are here, it is brilliant, isn’t it?” (E aqui nós estamos, não é maravilhoso?).