/ADELINA (ROMANCE) CAPÍTULO 15

ADELINA (ROMANCE) CAPÍTULO 15

Marcos Alvito

Para os Alvitos e os Oliveiras e para Eduardo Ferreira, meu primo d’além-mar

Capítulo 15 – 1823– Adelina

A procissão espremia as casas quando tomou a Rua do Rosário. De qualquer ponto se avistava o andor de São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Em meio à massa, lá íamos nós quatro de braços dados caminhando com a cabeça erguida. Rosa, de novo barulhenta, engraçada, inventando apelidos e brincadeiras. Agora chamava sinhô Damásio de Elefantinho. A patroa era Sinhá Jararaca e Aurora, a Hiena. Joaquim, ao lado dela, falava e se vestia como um homem, bem estabelecido como oficial de sapateiro. Camundongo estava quase tão alto, e continuava maroto e divertido como uma criança.

Eu nunca tinha visto tanto preto junto. Homens e mulheres de muitas nações. Muitos eram conhecidos nossos. Bárbara, moçambique espigada, vaidosa, tatuada na testa, não dispensava brincos e colar. Trabalhava numa casa muito rica e andava na ponta dos pés, um pouquinho metida a besta. Mas se tomava um copo de pinga desandava a falar palavrão, chorava, brigava, virava uma leoa zangada. Chamava cachaça de amansa-bunda. Mas a ela não amansava nem um pouco. Antonia era uma negra angola doce feito os sonhos que vendia nas ruas. Era pequena e delicada, um passarinho, mas o seu olhar era firme e sabia o que queria. Contou que já havia juntado quase todo o dinheiro da alforria. Só não gostava que perguntassem sobre a cicatriz no alto do seio esquerdo. Virava ostra. Deolinda era uma cassange grandalhona de beiços grossos e olhos bons. Ganhava a vida como quitandeira. Tinha mão: fazia uma feijoada que Fabumi adorava. Fazia questão de beijar as mãos dela em agradecimento. Ele é louco por mim, mas estou de olho.

Os amigos dele também estavam ali. Fabrício, negro benguela que vendia leite de porta em porta. Tinha visto o patrão colocar água no leite para fazer mais dinheiro e passou a fazer o mesmo. Era o parceiro perfeito do meu preto mina, vivia contando histórias e fazendo piada. Mas não podiam mexer com o seu penteado. Em um círculo na parte de trás da cabeça o seu cabelo estava em três alturas, uma mais baixa aparada a navalha, outra média cortada a tesoura e a última mais alta. Também conhecido de Fabumi era João Congo, vendedor de alho, cheiro que nunca saía. Fabumi dizia pra Deolinda que se estivesse faltando tempero na comida era

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só ela colocar um dedinho de João Congo. Parecia ser muito calmo, mas Fabumi me contou que ele era um capoeira tremendo, capaz de encarar sozinho meia-dúzia de morcegos.

Quem apareceu novamente depois de muito tempo foi aquele branco velho com olhos que querem beber tudo. Além do seu ajudante, desta vez estava acompanhado por uma mulher. Uma mulata bonita feito o nascer do sol no Cuanza e com carne suficiente para alimentar uns dois ou três crocodilos. Seu olhos eram bondosos, não olhava a gente de cima, só com um pouco de tristeza.

Bastava reparar nos penteados e tatuagens e reconhecer gente de todas as nações: quelimanes, calavas, cabindas, monjolos e outros mais. Quase não havia minas, porque os orgulhosos preferiam ter uma igreja e uma irmandade só para eles. Provoquei Fabumi: será que ele e outros minas haviam viajado no camarote do tumbeiro?

Eram ondas e ondas feitas de pés descalços, de gente com roupas surradas e rasgadas. Apesar da festa, os olhares carregavam sofrimentos com feridas tão profundas quanto as que deixam marcas no corpo e na alma. Alguns mancavam e precisavam da ajuda de um pedaço de madeira. Outros se arrastavam com dificuldade, velhos de menos de quarenta anos, cuja vida fora devorada pelos brancos. Ali, a única dignidade, o único orgulho, era estar vivo. Conseguir caminhar e seguir em frente, apesar de tudo. Mesmo assim, com os cantos e os fogos aos poucos todos iam sendo tomados por uma pontinha de esperança, aquela brasinha que reacende a fogueira. A coisa esquentava quando a gente terminava de repetir os hinos do padre e podia cantar com alegria:

São Benedito

É santo de preto

Ele bebe garapa

Ele ronca no peito

Depois de repetir isso umas trinta vezes cantando com toda força, ficava admirada que São Benedito não aparecesse por ali para participar da festa. Afinal, um santo que bebia cachaça e arrotava feito preto só podia ser nosso irmão.

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Tinha tanto tambor tocando que era capaz do santo tomar um gole, descer do andor e sair dançando. Aquela multidão iria virar uma fogueira capaz de tocar fazer a cidade dos brancos virar cinza. Por isso que havia dezenas de soldados a cavalo acompanhando a procissão. Faziam cara feia, posando de homens maus. Acho que estavam com medo da gente. Mukongo sempre dizia: quando o animal ataca é por que está com medo.

A maioria dos que estão aqui caminhando não acredita no tal Jesus e na ideia de que ele morreu para nos salvar. Hoje quem está na cruz somos nós, é o nosso sangue que é derramado. Mas acreditamos em Nossa Senhora do Rosário e em São Benedito. Rezamos para eles nos protegerem de doenças, da maldade dos brancos, da perseguição dos morcegos e de tantos perigos que existem nessa vida. Pelo menos uma vez por semana eu e Rosa nos encontramos na igreja para agradecer e pedir antes de voltarmos para a casa dos Damásio. Ajoelhamos, fazemos a oração que nos ensinaram, beijamos as imagens e falamos um pouquinho com os santos.

Acreditamos na nossa irmandade. Ela guarda nossas economias para que os brancos não roubem o dinheiro da alforria. De tempos em tempos, nós quatro dávamos o que havíamos conseguido economizar ao tesoureiro. Isso garante que aquele que é humilhado a vida inteira tenha ao menos um enterro digno. Para isso, fazemos nossas contribuições e esmolamos nos dias santos. Joaquim e Camundongo, que têm talento para música, tocam marimba e oricongo aos domingos, e o que arrecadam vai para a caixa da irmandade. Também participamos da organização de festas, aqui Rosa é sempre a mais animada, passa a semana inteira pedindo a Cesária que faça comida, fala com todo mundo na rua para aparecer, vende rifa, só falta soltar fogos de artifício, dar cambalhotas e tocar tambor. No dia parece que é a festa de aniversário dela, fico vendo a hora em que vai exigir que todo mundo lhe dê os parabéns. Uma vez, disse que ela era exagerada a resposta veio que nem uma chicotada:

— Minha irmã, essa negrada tem que se unir, precisamos de toda a força pra enfrentar os ahuki. E sabe de onde vem a força? Vem da alegria. E a alegria vem da festa, de ver nosso povo de mãos dadas. Não tem mais rebolo, angola, moçambique não, Adelina. Somos todos escravos. A gente vai ganhar essa guerra com canto, dança e muito batuque.

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Rosa era Rosa sim, mas agora era muito mais. Não deixou a raiva dos brancos secar o tanto de vida que sempre teve dentro dela. Continuava alegre, mas não queria viver somente os prazeres. Vivia dia e noite sonhando com o fim do seu cativeiro. O que passou no Aljube a fez descobrir que para uma escrava a porta do Inferno está sempre aberta. Se sinhá quisesse poderia acusá-la de roubo mesmo sem ser verdade. Ou bater nela sem motivo . Rosa não via a hora de respirar o ar da liberdade, para viver sem ter o medo como sombra.

Sentia a mesma coisa. A compra da carta estava próxima, eu e Fabumi já tínhamos juntado um bom dinheiro. Ele já fazia planos daquele jeito abusado, imaginando nós dois em Salvador. Dizia que lá é que era terra boa para preto mina.

— E eu, seu sem-vergonha? Eu sou rebolo.

— Mas você é linda demais e nós minas vemos na beleza um sinal da preferência dos deuses. Lá você vai ser uma rainha. Aliás, Lina, você já é a minha rainha.

Dava para brigar? Mas nós conversamos sobre um assunto bem sério. Eu queria parar de fazer contrabando de perfumes. Tinha cada vez mais medo de retornar da Praia Grande. Termos sido parados pelos guardas me deixou apavorada. Foi por muito pouco. Fabumi continuava igual. Andava sem temor, despreocupado, contando suas histórias, dando gargalhada, como se nada tivesse acontecido. Talvez sem demonstrar para me dar mais coragem. Pedi a ele para a gente parar. Completaríamos o que faltava para conseguir nossas alforrias com as economias do nosso trabalho do dia-a-dia. Nosso plano podia desmoronar que nem um castelo de areia. A punição dos brancos seria violenta. Podíamos ficar anos longe um do outro. Na prisão.

Fabumi não ficou nervoso ou chateado. Seus olhos eram um lago. Disparou a flecha bem no alvo:

— Lina, eu já fazia isso antes, sozinho. Posso voltar a fazer desse jeito, sem você. Não tem problema, é isso que você quer?

Se ele pelo menos tivesse gritado, poderia ficar com raiva dele. Mas assim eu não podia deixar de ajudá-lo. Estávamos juntos. Nossas vidas misturadas.

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Contra os morcegos, os sinhôs, as sinhás e todos os ahuki. Os olhos dele eram duas luas cheias quando eu disse que iria continuar. Abriu um sorriso e me contou uma história:

— Lina, esses que você chama de Ahuki nunca vão me pegar. Xangô vai me proteger. Uma vez ele estava cercado de inimigos por todos os lados. Queriam cortar sua cabeça. Xangô se escondeu na casa de Oiá. Ela cortou os cabelos e com eles cobriu a cabeça de Xangô. Em seguida o vestiu muito bem e colocou nele colares, anéis e pulseiras. Como se fosse Oiá, Xangô passou pelo meio dos seus inimigos, que abriram caminho para a beleza. Quando se deram conta do engano, Xangô já havia fugido para longe.

Você vai se vestir de mulher, Fabumi?

— Claro que não, Lina — Disse ele rindo gostoso. — Mas a astúcia vence a força bruta. Os ahuki não vão me pegar nunca. Nem a você. Meu pai Xangô não vai deixar.

Nessa hora ele segurou com a mão direita um colar de contas vermelhas e brancas, como se fosse o próprio machado duplo de Xangô.

— Tomara que você esteja certo e que Xangô te proteja e a mim também. Vou me apegar a Rosário e São Benedito e rezar muito para a gente não cair nas mãos dos morcegos.

Não disse, mas também confiava em Nzambi Mpungu. O criador de tudo sempre tinha respostas. E talvez tenha sido ele que me inspirou aquele sonho.

Mukongo saiu pra caçar. Naquele dia quis ir sozinho. A caçada era o momento dele pensar, no meio da mata. Ali estava tão à vontade quanto os pássaros no céu. Caminhou reconhecendo as árvores e seus frutos. As ervas boas e más, como seu avô tinha lhe ensinado. As formigas, em fila, no seu trabalho de cortar e carregar as folhas. Riu dos lagartos oveiros que escapuliram ao notar sua chegada. Ouviu o canto do Estorninho violeta, do Papa-mosca de cabeça preta, do Beija-flor de barriga amarela, da Viuvinha, da Zonguinha, do Bigodinho, da Freirinha. E do seu pássaro preferido, o Peito-de-fogo. É um bichinho que cabe na palma da mão.

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Tem esse nome por causa do peito avermelhado. Seu canto é simples e calmo. Fazia Mukongo se sentir bem. Pensou consigo que a caçada seria boa, a floresta estava viva naquele dia. De repente, todos aqueles pássaros vieram na sua direção, uma nuvem de penas. Pensou que fossem bicá-lo, mas apenas davam voltas e voltas em torno dele até voarem para longe. Ficou apenas um Peito-de-fogo, no chão. Mukongo se abaixou e estendeu o braço. O pássaro subiu em sua mão como se fosse a coisa mais natural do mundo. Começou a cantar de uma maneira diferente, como se estivesse nervoso. Logo ele, tão pequenino e tranquilo. Foi aí que Mukongo viu os olhos do pássaro ficarem vermelhos. Era um aviso. Ouviu sons de folhas se mexendo e se virou. Estava cercado de serpentes: a surucucu de veneno poderoso, a enorme mamba verde e a pior delas, a cobra cuspideira. Esse monstro pode lançar um jato do seu veneno nos olhos e na boca de suas vítimas. Mukongo se levantou e empunhou com coragem a sua lança. As serpentes foram se aproximando, o horrível som delas sibilando, a promessa de morte nas línguas nervosas. Sem que visse de onde viera, Mukongo se viu preso numa rede. Quanto mais ele tentava se livrar, mais ela se prendia a sua pele e o contato com ela queimava. Caído no chão, agora ele podia ver os olhos das serpentes, cada vez mais perto…

Nessa hora eu saltei da cama, o coração explodindo, chorando sem parar. Continuava amando Mukongo. Será que aquele pesadelo era um aviso do que poderia estar acontecendo com ele? Mukongo tinha morrido na guerra, numa caçada? Quase não consegui pensar o pior. E se ele tivesse sido escravizado pelos ahuki?

Lá em casa tinha acontecido algo que ninguém esperava. Camundongo estava guardando algum segredo da gente. Saía mais cedo do que todo mundo e sempre voltava mais tarde. Rosa e eu pensamos que fosse uma namoradinha e ela não parava de brincar com ele:

— Arrumou uma camundonga, moleque? Acho que ela te amandingou. Já tá querendo se acuerar? Antes, Adelina e eu vamos ter que aprovar.

Não vou me amancebar com ninguém, Rosa. Quando for fazer isso você não vai ficar sabendo não. Se for pequena vai dizer que parece uma criança, se for grande vai dizer que parece minha mãe. Se tiver bunda pequena

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vai falar que tem que comer mais, se tiver bunda grande vai dizer que tem que comer menos. Ou então vai cismar com o nome, a nação ou o penteado.

Rosa riu muito enquanto ele falava isso, que não estava longe da verdade. Mas não deixou sem resposta:

— Tenho mais o que fazer do que cuidar de camundonga, menino. Eu e Adelina só estamos querendo te proteger, casar com a mulher errada é pior do que uma má colheita. Porque a colheita pode melhorar no ano seguinte, mas esse tipo de mulher só piora.

Algumas semanas depois o próprio Camundongo nos contou o que estava acontecendo. O moço da loja de partituras em que ele trabalhava se chamava Fernando. Era um rapaz ainda, tinha uns vinte anos. Era sobrinho do dono, um velho ranzinza. Logo ele e Camundongo se tornaram camaradas. Vendo o esforço que o moleque fazia para decorar as partituras, Fernando fez uma proposta: ensinar Camundongo a ler. Para isso, teria que chegar mais cedo e sair mais tarde. De manhã, Fernando lhe ensinava as letras do alfabeto, bem devagar. Durante o dia, nos intervalos de descanso, Camundongo ia fazendo os exercícios, tentando rabiscar uma letra ou outra, depois palavras e por fim frases. Quando chegava no fim do dia, Fernando corrigia seus exercícios e tirava dúvidas. Deve ter demorado cerca de seis a sete meses, mas Camundongo aprendeu muito bem.

Para provar, nos mostrou o seu caderno de exercícios. Pedimos para escrever o nome dele e o nosso umas dez vezes até a gente acreditar. Parecia uma mágica. Ficávamos olhando para os dedos pequenos e sua dança. Quase perdemos a respiração quando ele apresentou a última surpresa: um jornal. Explicou que naquele papel, em palavras, se contava o que estava acontecendo aqui e no resto do mundo. Leu algumas notícias para nós. Tive a sensação de que aquilo era uma arma mais poderosa do que qualquer pau de fogo. Fiquei imaginando se todos negros e negras aprendessem a ler. Os ahuki não poderiam mais nos tratar como coisas. Não seríamos mais escravos. Mas ficamos tristes quando leu os avisos de chegada e saída de navios, alguns carregados de escravos, bem como a parte do jornal com anúncios de compra, venda e aluguel de escravos:

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Vende-se uma escrava de nação cassange, boa cozinheira, engomadeira, passadeira, costureira, lavadeira, ainda rapariga e muito hábil para o serviço de uma casa.

Só faltava dizer que era boa para fuder com o patrão e tomar pancada da patroa. O jornal era escrito pelos brancos. Naquele papel pintado de tinta preta a dor da gente não tinha lugar.

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